Texto e Doutrina: Uma Análise da NVI23
- Autores Diversos

- 13 de ago. de 2025
- 30 min de leitura
Atualizado: 19 de ago. de 2025
Por Gabriel Palheta
Índice
Introdução
As santas Escrituras e a inerrância em cheque
A doutrina da Trindade e a omissão de 1 João 5:7-8
Batismo e fé: a ausência de um versículo crucial
Mordomia cristã e as omissões em 1 Coríntios 6:20
A família segundo Gênesis: uma análise do termo “aliada” na NVI23
Advertências acerca do juízo: o aviso do Senhor silenciado em Marcos 9:44 e 9:46
Conclusão
APÊNDICES
A – CITAÇÕES PATRÍSTICAS DA CLÁUSULA JOANINA (1 JOÃO 5:7)
B – VERSÍCULOS OMITIDOS NA NOVA VERSÃO INTERNACIONAL (EDIÇÃO 2023)
C – POR QUE USAR UMA VERSÃO CLÁSSICA DAS ESCRITURAS?

APRESENTAÇÃO
Chamo-me Gabriel Palheta, tenho 26 anos, sou casado e congrego na Igreja Batista Nova Canaã, em Jacundá – Pará.
Não sou teólogo por formação, tampouco tenho incontáveis diplomas acadêmicos. Sou um simples membro de uma igreja local que, assim como você, vai ao culto, lê a Bíblia, luta contra pecados e serve o corpo de Cristo.
Neste artigo, me propus a tratar do assunto, pois o julgo pertinente e de vital importância para a igreja de Cristo. Como um batista, crendo na apostolicidade da igreja local, dirijo meus escritos a todo e qualquer irmão que se interesse e se identifique por e com eles. Desejo que o que escrevi traga edificação pessoal e também reflexão a grupos de crentes e comunidades.
Que a paz de nosso Senhor Jesus Cristo seja com vosso espírito. Amém.
Introdução
A Nova Versão Internacional (NVI) é uma tradução bíblica amplamente utilizada entre os batistas. Sua edição mais recente, datada de 2023, já está em circulação e vem substituindo gradualmente a anterior. No software Holyrics, amplamente adotado pelas igrejas, essa atualização já foi implementada.
Este artigo analisa passagens que foram omitidas ou alteradas na NVI23, avaliando de que forma tais mudanças comprometem o conteúdo doutrinário das Escrituras. Com base na Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, destacamos textos que afetam doutrinas essenciais, como a Trindade, o batismo, a mordomia cristã e o juízo eterno.
Nosso objetivo é promover uma reflexão séria sobre a fidelidade textual das versões bíblicas adotadas pelas igrejas.
Todos os versículos apresentados neste artigo estão contidos na Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, com exceção daqueles analisados no capítulo 'As santas Escrituras e a inerrância em cheque', onde adotamos uma abordagem diferente.
As citações da Declaração Doutrinária seguem o formato:
(Cap. [número e título], §[parágrafo]).
✦ O conteúdo dos textos publicados no site Curso Bíblico Online por autores convidados e/ou artigos cedidos pelos autores expressa a opinião dos mesmos, sendo eles os responsáveis.
As santas Escrituras e a inerrância em cheque
Como é comum nas Confissões de Fé, a CBB (Convenção Batista Brasileira) inicia nossa Declaração Doutrinária falando das Sagradas Letras.
Destaco aqui:
“A Bíblia é a Palavra de Deus em linguagem humana.1
Sendo Deus seu verdadeiro autor, foi escrita por homens inspirados e dirigidos pelo Espírito Santo.3
Seu conteúdo é a verdade, sem mescla de erro, e por isso é um perfeito tesouro de instrução divina.5”
(Cap. I – Escrituras Sagradas, §1, 3 e 5)
Concordamos plenamente com cada uma dessas palavras, mas dependendo da versão bíblica que utilizamos, podemos entrar em conflito com o que professamos.
Neste capítulo citarei 3 casos onde a NVI23, seguindo versões contemporâneas das escrituras, complica a fé na inerrância e infalibilidade da Bíblia Sagrada.
Caso 1: Benção ou maldição?
Em Gênesis 27 nos deparamos com o episódio em que Jacó usurpa a bênção de seu irmão Esaú. Nos versículos 38 e 39, lemos:
"Esaú pediu ao pai: ― Meu pai, o senhor tem apenas uma bênção? Abençoe-me também, meu pai! Então, Esaú chorou em alta voz. Isaque, o seu pai, respondeu-lhe: “A sua habitação será longe da fartura da terra, distante do orvalho que desce do alto céu.” (NVI23)
A passagem acima contrasta com a bênção que Jacó recebeu no lugar de Esaú, e faz aparente sentido — exceto por uma coisa: A clara e completa discordância com o Novo Testamento.
Hebreus 11:20, na própria NVI23, diz o seguinte:
"Pela fé, Isaque abençoou Jacó e Esaú com respeito ao futuro deles.”
À primeira leitura, o leitor capta estranheza. Isso acontece porque o caso é realmente uma contradição textual.
O texto hebraico não contém a expressão “longe da”, como aparece na NVI. O que se lê ali é simplesmente: “das gorduras da terra e do orvalho do céu”, sem qualquer indicação de distância. Tal adição interpretativa distorce o sentido da fala de Isaque e entra em conflito direto com Hb 11:20.
A NVI23 não está sozinha nesse problema textual, mas é acompanhada por outras versões.
Em português, apenas as versões clássicas — ACF (seguindo Almeida original) e BKJ (seguindo a King James Version) — trazem a bênção de Isaque sobre Esaú, ainda que inferior à recebida por Jacó.
Caso 2: Erros geográficos nos evangelhos?
Em Lucas 4:44, a NVI23 (seguindo outras versões contemporâneas) traz:
"E continuava pregando nas sinagogas da Judeia.”
Mas há um problema claro aqui!
O contexto de todo o capítulo afirma que Jesus estava na Galileia:
● Em Lc 4:14-15, o Senhor chega à Galileia e prega nas sinagogas.
● Em Lc 4:16, Ele vai a Nazaré, na Galileia.
● Em Lc 4:31, Ele vai a Cafarnaum, que fica na Galileia.
● Em Lc 5:1, Ele está no lago de Genesaré — novamente na Galileia.
Como poderia, então, estar na Judeia no versículo anterior?
Aqui não há espaço para um milagre de “teletransporte” semelhante ao que ocorre com Filipe no livro de Atos. O texto é uma narrativa naturalmente contínua.
Estamos diante de um claro problema de tradução.
Algo semelhante ocorre em João 1:28, onde a NVI23 traz:
"Tudo isso aconteceu em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.”
O problema: não havia uma Betânia além do Jordão.
Comentando a passagem, o teólogo batista John Gill escreveu:
“O lugar onde se passou esta conversa, segundo se encontra na Vulgata Latina, em todas as versões orientais; na cópia Alexandrina, e em muitas outras cópias, e também em Nonnus, é chamado Betânia; mas, como observa De Dieu, Betânia não ficava além do Jordão, nem no deserto da Judeia, mas perto de Jerusalém, cerca de duas milhas de distância.” (1)
Por isso, a tradução de João 1:28 na NVI23 apresenta imprecisão geográfica e incoerência.
Qual tradução seria correta então?
O Texto Tradicional[1] usado pela igreja da Reforma traz ‘Betabara’ — termo que bate perfeitamente com a descrição da passagem e tem testemunho manuscrito que o sustenta.
[1] Texto Tradicional: título atribuído aos textos usados pela igreja desde a Reforma Protestante. O Texto Massorético em hebraico do Antigo Testamento, e o Texto Recebido do Novo Testamento (grego).
João Calvino comenta:
“Em vez de 'Betabara', alguns inseriram aqui o nome 'Betânia', mas isto é um erro; pois vemos depois quão perto Betânia estava de Jerusalém. A localização de Betabara, tal como apresentada por aqueles que descreveram o país, concorda melhor com as palavras do Evangelista.” (2)
E Eusébio, bispo do século IV, testemunha:
"Bethabara, [...], situada além do Jordão, onde João batizava." (3)
Mais uma vez, as versões clássicas da Bíblia se mostram superiores, traduzindo corretamente ‘Galileia’ em Lc 4:44, e ‘Betabara’ em Jo 1:28.
Caso 3: O evangelista Marcos não conhecia tão bem os escritos dos profetas?
Marcos 1:1-2 (NVI23):
"O princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus, conforme está escrito no profeta Isaías: “Vejam, enviarei o meu mensageiro à sua frente; ele preparará o seu caminho”.
Preferindo uma leitura alternativa ao Texto Tradicional que traz: “como está escrito nos profetas”; a NVI23 optou por seguir o Texto Crítico[2] do Novo Testamento; a saber, que lê: “no profeta Isaías.”
[2] Texto Crítico: Novum Testamentum Graece Nestlé-Aland. Texto cientifico que reconstrói as escrituras a partir dos manuscritos de datação mais antiga. Recebe esse nome por sua atribuição aos críticos textuais.
Qual o problema aqui? É que Isaías não disse tais palavras, mas sim Malaquias!
Malaquias 3:1:
"― Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim.[...]”
A própria NVI23 traz essa referência em seu rodapé.
Por que, então, mesmo ciente disso, o comitê de tradução preferiu traduzir assim?
Consideremos duas hipóteses:
1. Confiança no Texto Crítico, que é baseado naquilo que os acadêmicos chamam de “melhores manuscritos”, mesmo que contradiga o conteúdo.
2. Marcos de fato recita Isaías — mas apenas no vers.3 —, de modo que o vers.2 seria um erro do evangelista. Ou, quem sabe, do copista.
Quanto a hipótese 1, comento sobre os “manuscritos mais antigos” no capítulo final deste artigo.
Quanto à hipótese 2, se for razoável, teremos de lidar com a consequência lógica de que Aquele que inspirou Marcos também errou. Ou se foi o copista quem falhou, Aquele que vela sobre sua palavra (Jr 1:12) falhou em preservá-la.
Essas problemáticas também se aplicam aos outros dois casos analisados anteriormente.
Como alguém pode confiar numa Bíblia supostamente inerrante que contém erros?
Respondemos: certamente ela não erra, pois Deus não errou ao inspirar, nem falhou ao preservar sua Palavra. Por isso, sustentamos a crítica apresentada e reafirmamos o que declara o parágrafo 5 do Capítulo I de nossa Declaração Doutrinária: a Escritura é “sem mescla de erro”.
A Doutrina da Trindade e a omissão de 1 João 5:7-8
Em seu segundo capítulo, nossa Declaração Doutrinária expressa:
“O único Deus vivo e verdadeiro é Espírito pessoal, eterno, infinito e imutável; é onipotente, onisciente, e onipresente; é perfeito em santidade, justiça, verdade e amor.1
Em sua triunidade, o eterno Deus se revela como Pai, Filho e Espírito Santo, pessoas distintas mas sem divisão em sua essência.5
(Cap. II – Deus, §§1 e 5)
Seguindo o padrão de Confissões de Fé históricas, a CBB traz um conjunto de referências para cada parágrafo da Declaração.
No que tange ao parágrafo 5, a CBB destaca as seguintes referências: “5. Mt 28.19; Mc 1.9-11; 1Jo 5.7; Rm 15.30; 2Co 13.13; Fp 3.3”
Em negrito, destacamos 1Jo 5:7, pois ela é o objeto de nossa análise aqui. Além deste parágrafo, a mesma referência aparece no subcapítulo que trata de Deus Espírito Santo, no parágrafo 1.
A passagem bíblica diz:
"Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um.” (ACF)
A passagem acima é bela, especialmente por tratar do ser do nosso Senhor e de sua triunidade[3]. O leitor deve ter notado, entretanto, que não utilizei a versão NVI23. Fiz isso porque a versão simplesmente omite a passagem!
Segundo o próprio comitê, a passagem não se encontra em manuscritos antigos, se não em tardios. Por esta razão eles a omitiram.
[3] triunidade: que diz respeito a natureza trinitária de Deus. Três pessoas unidas em um único Deus.
Bom, analisemos isso mais seriamente e de forma pontual.
1 - Qual versão da NVI está correta?
A NVI 2023 traz nota de rodapé ao texto:
“Há manuscritos da Vulgata que trazem testemunho no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo, e estes três são um. 8 E há três que testificam na terra: o Espírito (essa passagem não consta no texto de nenhum manuscrito grego anterior ao século XIV).”
Para o comitê de tradução, os manuscritos datarem a partir do século quatorze é um problema que caracteriza adição ao texto original.
Mas… Qual comitê está correto?
A NVI 2011(edição anterior) traz a seguinte nota:
“Isto não consta em nenhum manuscrito grego anterior ao século doze.”
Complicando um pouco mais, o comitê da NIV em inglês, edição de 1978, traz na mesma passagem a seguinte nota:
“Não encontrado em nenhum manuscrito grego antes do século XVI [dezesseis].” (Tradução livre) (4)
Se os próprios comitês são discordantes em um caso tão sério, como confiar nas informações que são apresentadas? Século XII, XIV ou XVI. Qual edição está certa? E se nenhuma estiver? Há de surgir outra edição afirmando uma datação diferente?
Sobretudo, nos atentemos a algo importante: A datação de um manuscrito não determina, por si só, sua fidelidade ao texto original. Vejamos isso no próximo ponto.
2 - O texto transmitido, não os manuscritos, é a palavra de Deus.
Não é incomum algum teólogo ou algum crente que seja aplicado ao estudo das escrituras afirmar o seguinte: “A Bíblia é a palavra de Deus, mas apenas nos originais.” Outros chegam a dizer, ainda que não medindo o peso das palavras: “A Bíblia contém a palavra de Deus.”
Tais pensamentos surgem hora ou outra no meio do povo de Deus, principalmente na modernidade. A intenção de alguns (não falo dos liberais[4], que sim, são um problema) é de supostamente dizerem que os autógrafos são a palavra de Deus. Como não os temos, é possível que haja uma suposta imprecisão na Bíblia que está em nossas mãos.
[4] liberais: que remete ao liberalismo teológico; crença que reinterpreta a fé cristã à luz da razão, da ciência e da crítica histórica, rejeitando doutrinas como a inspiração verbal da Bíblia, milagres sobrenaturais e às vezes até a divindade de Cristo.
As afirmações, no entanto, são perigosas, pois geram pelo menos duas consequências lógicas inevitáveis:
A primeira: “Se apenas os originais são a palavra de Deus, o que temos em mãos não é a palavra de Deus. Pelo menos não completamente.”
A segunda: “Qual parte da Bíblia é verdadeiramente palavra de Deus?”
O fim lógico dessas coisas é cairmos num absoluto relativismo.
Em Atos 8:26-39 a Bíblia nos conta um episódio evangelístico entre Filipe e um homem etíope. No v.28, o próprio texto sagrado nos afirma:
“e lia o profeta Isaías [o etíope]”. Grifo meu.
O etíope não tinha o autógrafo do profeta Isaías. O que ele tinha era uma cópia fiel.
A Bíblia não diz que o etíope lia alguma escritura baseada em Isaías, mas sim que pelo caminho ele lia o profeta Isaías.
Eis a forma pela qual a Bíblia chegou até nós (inclusive 1Jo 5:7-8): Através da transmissão das palavras por meio de cópias.
Manuscritos são meios de transmissão da palavra de Deus, e para nós no século XXI, são testemunhos consideráveis das Sagradas Letras. Todavia, não são os únicos e exclusivos meios de transmissão textual, mas um dos veículos de preservação textual.
Temos poucos manuscritos gregos de 1Jo 5:7-8, isso é verdade. A razão disso, comentaremos no próximo ponto. Porém, em contrapartida, temos um forte testemunho latino de manuscritos que a confirma. Além dos manuscritos, temos também o testemunho de lecionários, de comentários, de traduções, e citações.
3 - Evidências históricas da passagem
Jerônimo de Estridão, no século IV, escreveu sobre 1 João 5:7-8:
“[...]especialmente naquele texto onde lemos a unidade da Trindade ser colocada na Primeira Epístola de João, onde muitos erros ocorreram nas mãos de tradutores infiéis contrários a verdade, que mantiveram apenas as três palavras 'água, sangue e Espírito' nesta edição, omitindo a menção do 'Pai, a Palavra e o Espírito', em que especialmente a fé católica é fortalecida e a unidade da substância do Pai, do Filho e do Espírito Santo é atestada.” (5)
A declaração de Jerônimo comprova que naquele tempo já havia consciência da existência da passagem. Por alguma razão, copistas mal intencionados a omitiram em seus manuscritos.
Confirmando o que diz Jerônimo, na mesma época, Ambrósio de Milão afirma:
"A Divindade do Espírito Santo é sustentada por uma passagem de São João. Esta passagem foi, de fato, apagada pelos hereges, mas tal tentativa é vã, visto que sua infidelidade pode ser mais facilmente condenada. Considera-se a ordem do contexto para que essa passagem possa ser mostrada como referindo-se ao Espírito. Ele é nascido do Espírito, e é nascido de novo do mesmo Espírito, de quem se crê que o próprio Cristo nasceu e nasceu de novo. Mais uma vez, a Divindade do Espírito é inferida de dois testemunhos de São João; e, por fim, explica-se como o Espírito, a água e o sangue são chamados de testemunhas.” (6)
[Confira mais testemunhos históricos no Apêndice A]
A referida passagem bíblica chegou até nós, e chegou atravessando o tempo por meio do testemunho e transmissão textual.
Stephanus, por exemplo, possuía 9 manuscritos gregos que continham a passagem na época em que escreveu seu texto Grego (7). Infelizmente não temos conhecimento do paradeiro deles. Atualmente, são conhecidos oito manuscritos gregos que trazem a passagem. Quatro com o texto completo, quatro na margem (correção escriba que reconhece a autenticidade do texto).
4 - Evidência interna: A própria escritura.
Agora que tratamos das evidências históricas, vejamos finalmente a evidência interna.
O que diz a escritura?
Abaixo, a passagem e seu contexto com a omissão que rejeitamos:
1Jo 5:6-9 (NVI23)
"Este é aquele que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo: não somente por água, mas por água e sangue. E o Espírito é quem dá testemunho, porque o Espírito é a verdade.
Há três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três são unânimes.
Nós aceitamos o testemunho dos homens, mas o testemunho de Deus tem maior valor, pois é o testemunho de Deus, que ele dá acerca do Filho.”
O que há de errado? O versículo 9 diz que Deus dá testemunho: “[...]mas o testemunho de Deus tem maior valor, pois é o testemunho de Deus, que ele dá acerca do Filho.
No contexto imediato, onde diz que Deus dá testemunho de seu Filho? Alguns poderiam responder: “No v.8 o Espírito Santo dá testemunho junto a água e o sangue.” O Espírito Santo é Deus, é verdade, mas o Espírito Santo não é o Pai de Cristo. João utiliza linguagem trinitária, distinguindo as Pessoas divinas em sua função e testemunho. A coesão do texto se quebra com a omissão da parte que defendemos. O versículo 9 afirma que Deus testifica do Filho — mas onde está esse testemunho, se não no versículo omitido?
Reafirmamos, com plena convicção, nossa fé de que Deus preservou Sua Palavra de forma providencial ao longo dos séculos. Cremos que 1João 5:7-8 é parte genuína das Escrituras Sagradas, inspirada e preservada pelo Espírito Santo. Essa mesma certeza é refletida em nossa Declaração Doutrinária, que reconhece e afirma essa passagem como fiel testemunho da doutrina da Santa Trindade.
Batismo e fé: a ausência de um versículo crucial
O batismo e a ceia do Senhor são as duas ordenanças da igreja estabelecidas pelo próprio Jesus Cristo, sendo ambas de natureza simbólica.1 O batismo consiste na imersão do crente em água, após sua pública profissão de fé em Jesus Cristo como Salvador único, suficiente e pessoal.2
(Cap. IX – O Batismo e a Ceia do Senhor, §§ 1 e 2)
Em sua introdução, nossa Declaração Doutrinária menciona que os batistas se destacaram historicamente por praticarem o credobatismo[5], rejeitando o pedobatismo[6] e o sacramentalismo[7]. Por causa dessa fé, os primeiros batistas sofreram rejeição, perseguição e até martírio.
[5] credobatismo: batismo realizado mediante a profissão de fé.
[6] pedobatismo: batismo infantil.
[7] sacramentalismo: crença de que as ordenanças (batismo e ceia) são sacramentos que transmitem graça salvadora.
Como batistas, seguimos o exemplo daqueles que nos precederam e afirmamos com fundamentação nas Escrituras que, primeiro, se deve professar fé no Senhor e, só então, ser batizado.
Há diversos versículos que comprovam essa ordem. No entanto, o mais claro e direto deles, Atos 8:37, foi simplesmente removido em algumas versões brasileiras. A saber: a católico-ecumênica Bíblia de Jerusalém, a problemática Tradução Novo Mundo das Testemunhas de Jeová e, por fim, a mais recente edição da Nova Versão Internacional (NVI23).
Uma pergunta sem resposta
A própria perícope nos oferece uma forte evidência de que o versiculo 37 é genuíno: a quebra abrupta da narrativa diante de sua omissão.
O eunuco faz a Filipe uma pergunta que não é respondida. Então, simplesmente o texto já é retomado em outro momento.
Atos 8:36-38 (NVI23)
"Prosseguindo pela estrada, chegaram a um lugar onde havia água. O eunuco disse: ― Olhe, aqui há água. Que me impede de ser batizado?
— — *
Assim, deu ordem para parar a carruagem. Então, Filipe e o eunuco desceram à água, e Filipe o batizou.”
Já mencionamos a referida história no capítulo anterior.
Em resumo, conduzido pelo Espírito Santo, Filipe foi levado ao deserto onde se encontrou com um eunuco de nacionalidade etíope que lia o profeta Isaías, mas sem entendê-lo. Filipe passou a viajar com ele, lhe explicando as Escrituras. Durante o percurso, o eunuco teve seu coração atingido pela graça; Daí chegamos ao texto mencionado acima.
Além da falta de coesão imposta ao relato, fica subentendido que o próprio eunuco decide que está apto a ser batizado, não Filipe, que além de tê-lo evangelizado, lhe ensinou sobre a fé no Senhor Jesus e sobre o próprio batismo em seu nome.
“O que impede que eu seja batizado?” — Segundo a NVI, aparentemente, nada. Nenhuma fé, nenhuma confissão. O batismo se torna apenas um ritual d'água sem base espiritual clara.
A prática de omitir versículos, sobretudo com pressupostos duvidosos, traz prejuízo à doutrina e à fé da igreja nas escrituras. Alguns chegam a dizer que isso não seria necessariamente um problema, visto que temos outras passagens que falam da profissão de fé antes do batismo, como Mc 16:16 e At 16:30-33. Porém, o texto aqui excluído é o mais claro e direto que temos.
Ele diz:
Atos 8:37 (ACF):
"E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.”
Se cremos que Deus inspirou sua palavra, é consequência disso crer que Ele inspirou cada palavra escrita. Como admitir omissões sem fundamento objetivo? O critério é simplesmente dizer que “há manuscritos que acrescentam o versículo 37”, como diz a nota de rodapé da NVI?
A estimativa estatística é que, dos 5.800 manuscritos catalogados, cerca de 90% deles não trazem o v.37, enquanto 10% o trazem. Se o critério do comitê de tradução da NVI for excluir com base na quantidade de testemunhos manuscritos, ele não se sustenta, pois em Jo 5:4 a quantidade dos manuscritos que trazem o versículo é de aproximadamente 90%, enquanto a dos que não o trazem, de 10%. Mesmo assim, a NVI também o exclui.
Se o critério for o de que os manuscritos mais antigos não o trazem (Codex Sinaiticus e Vaticanus do quarto século), já comentamos no capítulo anterior a falha dessa tese.
(No último capítulo deste artigo comentamos o por quê manuscrito mais antigo não é garantia de mais fidedigno)
Concluímos que, a omissão de Atos 8:37 não é apenas detalhe técnico. É um prejuízo direto a uma doutrina clara: primeiro se crê, depois se é batizado. Quando esse versículo é apagado, tira-se do texto a confissão de fé que legitima o batismo.
Para nossa Declaração Doutrinária, Atos 8:37 é um texto fiel — e assim também cremos, com plena convicção.
[Veja lista completa de omissões em Apêndice B]
Mordomia cristã e as omissões em 1 Coríntios 6:20
Mordomia é a doutrina bíblica que reconhece Deus como Criador, Senhor e Dono de todas as coisas.1 Todas as bênçãos, tanto temporais quanto espirituais, procedem de Deus. Por isso, os homens lhe devem tudo o que são e possuem, inclusive o próprio sustento.2 O crente pertence a Deus, não apenas por ter sido criado por Ele, mas por também ter sido remido em Jesus Cristo.3
(Cap. XII – Mordomia Cristã, §§ 1, 2 e 3)
O que diferencia o ser humano das demais criaturas? A resposta é: o fato de ele ser alma vivente.
Gênesis 2:7 (ACF):
"E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”
(Utilizo aqui a ACF, pois julgo que também neste texto a NVI23, seguindo a tendência de outras versões contemporâneas, traduz de forma imprecisa: “ser vivente”.)
[Sobre a importância da equivalência formal, veja o Apêndice C]
O texto hebraico diz que o homem foi feito ‘néfesh chayyah'.
— Néfesh, na raiz, remete a respiração, vida e alma. No contexto humano, frequentemente implica uma alma consciente, dotada de vontade e emoções.
— Chayyah significa “vivente”, “vivo”, “que tem vida”.
Embora “ser vivente” seja uma tradução possível, “alma vivente” é, sem dúvida, a mais adequada ao contexto. Animais também são chamados de ‘néfesh chayyah' (Gn 1:20 e 1:24), mas não receberam o fôlego divino diretamente, nem possuem a consciência e capacidade moral do homem.
Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano é a coroa da criação. Por isso, desde o Éden, ele foi ordenado a dominar, cultivar e administrar a criação — não em nome próprio, mas como mordomo daquele que o criou. Logo, não sendo dono de si mesmo, o homem pertence Àquele que lhe deu o fôlego da vida.
Essa verdade é reiterada em 1 Coríntios 6:20 (ACF), texto citado pela nossa declaração doutrinária ao tratar da mordomia cristã:
"Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.”
O contexto desse versículo começa no v. 15 e é uma exortação contra a impureza e a fornicação, ressaltando que nossos membros pertencem a Cristo. O v.20 encerra o capítulo resumindo tal ensino.
Contudo, ao seguir o Texto Crítico, a NVI23 encerra o capítulo da seguinte forma:
1 Coríntios 6:19-20 (NVI23):
"Acaso não sabem que o corpo de vocês é templo do Espírito Santo, que está em vocês, o qual receberam de Deus? Vocês não são de vocês mesmos; foram comprados por um preço. Portanto, glorifiquem a Deus com o corpo de vocês.”
Comparando com a ACF, baseada no Texto Tradicional (Texto Recebido), nota-se a omissão de duas orações importantes: “e no vosso espírito” e “os quais pertencem a Deus.”
Desde a Reforma, a Igreja tem lido o versículo na sua forma completa, como está preservado no Texto Tradicional. Isso se sustenta, em primeiro lugar, por evidências históricas. Citações de Orígenes (8) e Agostinho (9), bem como lecionários antigos, confirmam a existência da leitura na íntegra.
Em segundo lugar, a maioria dos manuscritos gregos sustenta a forma completa, garantindo uma longa transmissão textual — embora reconheçamos que quantidade, por si só, não seja critério de autenticidade textual.
Além disso, a própria forma argumentativa de Paulo no capítulo apoia a leitura mais longa. O versículo 17 da NVI23 afirma:
"Aquele, porém, que se une ao Senhor é um espírito com ele.”
Sem entrar em debates teológicos sobre dicotomia[8] ou tricotomia[9], é evidente que Paulo distingue o espírito humano como parte essencial da união com o Senhor. Isso fortalece a coerência do versículo 20 na sua forma plena, enfatizando que tanto o corpo quanto o espírito pertencem a Deus.
[8] dicotomia: crença de que o ser humano é composto por uma parte material (corpo) e uma parte imaterial (alma-espírito, que são a mesma coisa).
[9] tricotomia: crença de que o ser humano possui corpo, alma e espírito, sendo três partes distintas que compõem sua natureza.
Ao omitir essas expressões, a NVI23 enfraquece a ênfase bíblica de que o cristão pertence ao Senhor em sua totalidade.
Alguém poderia argumentar: “Mas, se alguém procede bem com seu corpo, é sinal de que sua alma/espírito pertence a Deus.” No entanto, isso não é necessariamente verdade. Alguém pode fazer boas ações e abster-se da luxúria não sendo regenerado. A moralidade exterior, por si só, não comprova verdadeira espiritualidade interior.
A mordomia cristã começa na alma — nasce da consciência de que fomos redimidos e pertencemos a Cristo.
Jeremias 17:10 declara que Deus esquadrinha o coração e prova as entranhas. Isso significa que Deus enxerga o âmago do ser, sondando até mesmo as intenções mais ocultas. Logo, a verdadeira mordomia cristã abrange o homem por completo: das profundezas da alma ao corpo exterior.
Concluímos que a forma integral de 1 Coríntios 6:20 é a melhor forma de tradução que uma Bíblia pode ter. Primeiro, por que é fielmente a forma que Paulo escreveu. Segundo, por que expressa com precisão: nosso corpo e espírito pertencem a Deus, pois fomos comprados por bom preço.
A família segundo Gênesis: uma análise do termo “aliada” na NVI23
A família, criada por Deus para o bem do ser humano, é a primeira instituição da sociedade, cuja base é o casamento, que é a união entre um homem e uma mulher, sendo sua natureza heterossexual, monogâmica e indissolúvel.1
(Cap. XVII – Família e Casamento, §1)
Entre as referências bíblicas que fundamentam o parágrafo 1 de nossa Declaração Doutrinária, está Gênesis 2:18-25 — o relato da criação da mulher.
Nos versículos 18 e 20, ao “atualizar” o termo de sua edição anterior, a NVI23 resolveu introduzir de forma inédita a palavra “aliada” como referência à primeira mulher.
À primeira leitura, a palavra parece se adequar melhor a uma versão bíblica de linguagem contemporânea — mas a questão vai além.
Então, qual o problema com “aliada”, afinal?
Em primeiro lugar, a palavra não corresponde adequadamente ao termo hebraico original. ‘Êzer’, que significa “auxílio, socorro, ajuda”, não é traduzido fielmente aqui. “Auxiliadora” ou “ajudadora” são mais do que termos pouco usados no cotidiano, mas expressam com precisão e correta equivalência o significado original. Por essa razão, são termos amplamente usados em versões das Escrituras.
Em segundo lugar, a teologia do casamento é diluída.
O ensino bíblico transmitido por Paulo sobre a relação entre homem e mulher enfatiza a diferença de papeis entre eles, mesmo que ambos sejam iguais em valor e importância diante de Deus (conf. 1Co 11:3, Ef 5:22-33). Inspirado por Deus, Paulo baseia suas argumentações na construção textual de Gênesis 2:18. Percebe-se isso em 1Tm 2:13-14, onde ele traz conselhos ministeriais ao pastor Timóteo.
Para Paulo, assim como Cristo é o cabeça da Igreja, o marido é o cabeça de sua esposa. Sua esposa, por sua vez, se sujeita a seu marido como a igreja se sujeita a Cristo. Assim como Cristo amou a igreja e se sacrificou por ela, de igual modo o marido deve amar sua esposa e sacrificar-se por ela.
Homens são líderes espirituais de seus lares. Suas esposas, ajudadoras eficazes. Este elo é a forma que Deus ordenou para a condução da família.
O termo “aliada” é estranho às Escrituras e, portanto, inadequado. Mesmo que o termo respeite a igualdade ontológica[10] do homem e da mulher, ele não expressa a diferença funcional de ambos; Não reflete de forma precisa o original (‘êzer’); Além disso, pode reforçar argumentos progressistas de nosso tempo que invertem os papeis de homens e mulheres em seus lares.
[10] ontológica: relativa à essência do ser, refletindo a imagem de Deus.
Advertências acerca do juízo: o aviso do
Senhor silenciado em Marcos 9:44 e 9:46
Deus, no exercício de sua sabedoria, está conduzindo o mundo e a história a seu termo final.1
Os ímpios condenados e destinados ao inferno lá sofrerão o castigo eterno, separados de Deus.6 Os justos, com os corpos glorificados, receberão seus galardões e habitarão para sempre no céu com o Senhor.7
(Cap. XIX – Justos e Ímpios, §§§1, 6 e 7)
Nas referências ao parágrafo 6, nossa Declaração Doutrinária traz como fundamento às suas declarações o texto sagrado de Marcos 9:43-48. Seguindo novamente os passos da católico-ecumênica Bíblia de Jerusalém, a NVI23, mais uma vez, deixa hiatos no texto bíblico. Dessa vez, nos versículos 44 e 46.
Analisemos o que diz a NVI23:
A nota de rodapé da passagem diz o seguinte: “Há manuscritos que acrescentam onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga.”
De fato, há manuscritos que contêm o versículo — e aqui a NVI23 esquece de mencionar que são 96% deles (10). Mas como pode o comitê da NVI23 afirmar que é um acréscimo?
Isso se dá por algumas hipóteses que críticos textuais levantam sobre a passagem, e que nos dispomos a contrapor:
1. A repetição é simplesmente uma adaptação escriba do vers.48 para reforço estilístico.
2. Os manuscritos mais antigos não contém os dois versículos.
Resposta a hipótese 1
Tal declaração é apenas um questionamento moderno que não leva em consideração algo basilar: O estilo hebraico.
Por exemplo: Isaías e Salmos estão cheios de repetições e paralelismos. O salmo 136 repete 26 vezes a frase “porque a sua misericórdia dura para sempre”. Isaías 6, por sua vez, enfatiza o “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos”. Daí, você leitor fica a pensar: “Tudo bem. Mas os Salmos não são narrativos como o evangelho de Marcos, e sim poéticos. Além disso, tanto Salmos quanto Isaías foram escritos em hebraico, não em grego como foi o Novo Testamento”. Sim, é verdade. Mas o Senhor Jesus e seus apóstolos não são gregos — são judeus. Justamente por isso, os paralelismos e repetições são perfeitamente compreensíveis.
Se levarmos a hipótese 1 como regra para omitir versículos da Bíblia, teríamos que lidar com mais omissões em diversas passagens, como Jo 3:3 e 3:5: “na verdade, na verdade te digo”. Ou também a frase “ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!” que aparece 7 vezes em Mt 23. Ou ainda a expressão “não andeis cuidadosos” que aparece 3 vezes em Mt 6.
Concluímos — como contraponto a hipótese 1 — que as repetições na Bíblia e em Marcos 9 são:
● Estilo semítico[11] legítimo.
● Ferramenta de ensino usada para ênfase e memorização.
● Um costume do Senhor Jesus na sua retórica.
[11] semítico: referente a povos e línguas do antigo Oriente Médio, como os judeus.
Resposta a hipótese 2
Os manuscritos mais antigos a quem a Crítica Textual se refere são o Codex A (Sinaiticus) e B (Vaticanus), ambos da família textual alexandrina e datados do quarto século.
Não sou um adepto da Crítica Textual de nossos dias, mas para confrontar a ideia defendida pela maior parte dos críticos de que “manuscrito mais antigo é melhor”, deixo a palavra com Bruce Metzger, um renomado crítico textual que influencia a maioria deles:
“No mundo dos manuscritos, "mais antigo" não significa "mais confiável". Há três razões para isso. Primeiro, quanto mais recuamos no tempo, mais distorcida e não representativa a evidência se torna. Segundo, não há correlação científica entre a idade de um manuscrito e seu número de erros de copista. Terceiro, a existência de textos críticos modernos ironicamente refuta a presunção de que apenas manuscritos antigos contêm leituras confiáveis. As evidências tornam-se distorcidas quanto mais recuamos." (11).
Para Metzger, é problemática a ideia do ‘mais antigo ser melhor’.
Pois bem, mas e se Metzger estiver errado e manuscritos mais antigos são melhores, como defendem diversos tradutores? Bom, a hipótese 2 estaria certa, e acertaria por ser supostamente verdadeira a premissa do ‘quão mais antigo, melhor’.
Diante disso, respondo:
Manuscritos mais antigos que os alexandrinos do século IV não chegaram até nós porque foram amplamente copiados e manuseados, a ponto de se desintegrarem com o tempo. Naquela época, não havia impressoras; todo o trabalho era feito manualmente. Seu uso constante levou a inevitável desgaste e à perda física desses documentos. Apesar disso, há dois manuscritos antigos que sobreviveram e preservaram as passagens: o Codex C (Ephraemi Rescriptus) e o Codex W (Washingtonianus), ambos do século V.
Mas, ainda partindo da premissa do “quão mais antigo, melhor”, vejamos o testemunho da igreja antiga:
No terceiro século, Orígenes diz:
"E finalmente sobre o olho: 'Se teu olho te escandalizar, arranca-o; melhor é entrares no reino dos céus com um só olho do que, tendo dois, ser lançado na Geena do fogo inextinguível, onde o verme não morre e o fogo não se apaga.' Notai bem que Ele repete essa sentença sobre o verme e o fogo após mencionar a mão, o pé e o olho — uma ênfase tríplice, indicando a gravidade do castigo reservado aos que causam escândalo." (12)
Eusébio, no quarto século, também escreve:
"E nosso Salvador disse: ‘Se tua mão te escandalizar, corta-a; melhor é entrares no reino de Deus coxo do que, tendo duas mãos, ser lançado na Geena, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga. E sobre o pé diz o mesmo[...]" (13)
Finalmente, a hipótese 2, que defende a ausência das passagens com base em manuscritos mais antigos, cai diante dos próprios critérios daqueles que a sustentam. Mesmo se aceitássemos a premissa de que “mais antigo é melhor” — o que já é questionável — os testemunhos patrísticos dos séculos III e IV confirmam que essas palavras já circulavam como parte integrante do texto sagrado.
Conclusão
A integridade do texto bíblico é uma questão de vital importância para a fé cristã. As omissões e alterações identificadas na NVI23 levantam questões sérias sobre a consistência doutrinária e a confiança que se pode depositar em certas traduções contemporâneas.
Não negamos que a Crítica Textual moderna tenha produzido estudos relevantes, mas sem dúvida alguma afirmamos que muitas de suas decisões refletem critérios subjetivos e hipóteses frágeis, que afetam a confiança do leitor nas Escrituras.
Nossa intenção, portanto, não é atacar tradutores ou estudiosos, mas reafirmar o valor da preservação fiel das Escrituras. Que esta análise desperte zelo em você, leitor.
Referências bibliográficas
1. John Gill. An Exposition of the New Testament. Comentário sobre João 1:28.
2. João Calvino. Calvins Complete Commentary. Comentário sobre João 1:28.
3. Eusebio de Cesareia, Onomasticon, entrada "Bethabara", tradução latina atribuída a Jerônimo. Edição crítica: Eusebius Werke, Band 3: Onomasticon, editado por Ernst Honigmann (Leipzig: J. C. Hinrichs, 1954).
4. The Holy Bible, New International Version, 1978. International Bible Society. Nota sobre 1Jo 5:7,8. Em inglês: “Not found in any Greek manuscript before the sixteenth century.”
5. Jerônimo. Prólogo às Epístolas Católicas. c. 399 d.C. In: Biblia Sacra Vulgata. Trad. e rev. por Jerônimo de Estridão. Referência patrística à Comma Joanina (1 João 5:7).
6. Ambrósio de Milão. Do Espírito Santo. Livro III, capítulo 10.
7. John Gill. Exposition of the Old and New Testament. Comentário em 1 João 5:7.
8. Orígenes. Homilias sobre a Primeira Epístola aos Coríntios. In: MIGNE, J.-P. (Ed.). Patrologiae cursus completus. Series Graeca. Paris: Imprimerie Catholique, [s.d.]. v. 14, col. 372–374.
9. Agostinho de Hipona. Contra Juliano. In: MIGNE, J.-P. (Ed.). Patrologiae cursus completus. Series Latina. Paris: Imprimerie Catholique, [s.d.]. v. 44, col. 689–690.
10. Wilbur Pickering, Greek New Testament According to Family 35, 2015, notes on Mark 9:44 and 46.
11. Bruce Metzger, O Texto do Novo Testamento: Sua Transmissão, Corrupção e Restauração, 3. ed. (São Paulo: Vida Nova, 1991), 151–152.
12. Orígenes, Comentário sobre o Evangelho segundo Mateus (Commentariorum in Evangelium Matthaei), Homilia 15.
13. Eusébio de Cesaréia, Preparação Evangélica (Praeparatio Evangelica), livro IX, capítulo 28.
Apêndice
APÊNDICE A – CITAÇÕES PATRÍSTICAS DA CLÁUSULA JOANINA (1 JOÃO 5:7)
Citações dos Pais da Igreja que fazem referência direta (D) ou indireta (I) à cláusula trinitária de 1 João 5:7:
Pais da Igreja do Ocidente
Tertuliano, Contra Praxeas, 25 – (I)
Cipriano de Cartago, Da Unidade da Igreja, VI – (D)
Cipriano de Cartago, Epístola a Jubaiano, 72:12 – (I)
Poebádio de Agen, Contra Arianos, 17, 4 – (I)
Marcus Celedensis, Declaração de Fé – (I)
Eusébio de Vercelli, Da Trindade – (I)
Prisciliano, Liber Apologeticus, Tratado I, 46–48 – (D)
Vigílio de Tapso, Contra Varimadum, 1:5 – (D)
Vigílio de Tapso, Da Trindade, 7 – (D)
Ambrósio de Milão, Do Espírito Santo, 1:6 – (D)
Concílio de Cartago (415 d.C., 350 bispos) – (D)
Damásio de Roma, Confissão de Fé – (I)
Jerônimo, Explanação de Fé – (D)
Agostinho de Hipona, Cidade de Deus, 5, 11 – (I)
Agostinho de Hipona, Contra Maximiano, II, 22, 3 – (D)
Cesáreo de Arles, Sermão 97 – (sem classificação definida na fonte consultada)
Victor Vitensis, História da Perseguição da Província Africana, 3, 11 – (D)
Fulgêncio de Ruspe, De Trinitate, V; Contra Fabianum; De Trinitate ad Felicem; Resposta Contra os Arianos – (D)
Pais da Igreja do Oriente
Clemente de Alexandria, Extrato dos Profetas, 13 – (I)
Clemente de Alexandria, Stromata, I, 14 – (I)
Orígenes, Tratado sobre o Rebatismo, 15 – (I)
Orígenes, Tratado sobre o Rebatismo, 19 – (I)
Orígenes, Comentário sobre o Salmo 123 – (I)
Atanásio de Alexandria, Disputa Contra Ário, 44, 18 (PG 18:500) – (D)
Atanásio de Alexandria, Sinopse da Primeira Epístola de João – (I)
Gregório de Nazianzo, Oração 45 – (I)
Gregório de Nazianzo, Oração 31, 9 – (I)
Gregório de Nazianzo, Oração 39, 11 – (I)
Gregório de Nazianzo, Oração 39, 12 – (I)
Teodoro de Mopsuéstia, Tratado Sobre a Trindade em Um Só Deus na Epístola de João – (I)
Cirilo de Alexandria, Tesouro da Santíssima e Consubstancial Trindade – (I)
Nota: Os autores orientais frequentemente comentam a passagem em termos como: “João aqui na sua epístola ensina a unidade da Trindade” ou “O Espírito de Deus (…) como pode ser uma criatura se é dito que ele é Deus com o Pai, completando [aqui na epístola de João] a Santíssima Trindade”, evidenciando sua aceitação da cláusula mesmo quando não a citam literalmente.
APÊNDICE B – VERSÍCULOS OMITIDOS NA NOVA VERSÃO INTERNACIONAL (EDIÇÃO 2023)
A seguir, apresenta-se uma lista de versículos que foram completamente omitidos do corpo do texto bíblico na Nova Versão Internacional (edição de 2023). Alguns deles aparecem em notas de rodapé, como se fossem dúvidas textuais, mas estão ausentes da leitura contínua e oficial das Escrituras conforme apresentada ao leitor comum.
Evangelhos
Mateus 17:21 – “Mas esta casta de demônios não se expulsa senão pela oração e pelo jejum.”
Mateus 18:11 – “Porque o Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido.”
Mateus 23:14 – “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações; por isso sofrereis mais rigoroso juízo.”
Marcos 7:16 – “Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.”
Marcos 9:44 – “Onde o seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga.”
Marcos 9:46 – “Onde o seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga.”
Marcos 11:26 – “Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas.”
Marcos 15:28 – “E cumpriu-se a Escritura que diz: E com os malfeitores foi contado.”
Lucas 17:36 – “Dois estarão no campo; um será tomado, e o outro será deixado.”
João 5:4 – “Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.”
__________________________________
Atos dos Apóstolos
Atos 8:37 – “E disse Filipe: É lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.”
Atos 15:34 – “Mas pareceu bem a Silas ficar ali.”
Atos 24:7 – “Mas, sobrevindo o comandante Lísias, no-lo tirou das mãos com grande violência.”
Atos 28:29 – “E, havendo ele dito isto, partiram os judeus, tendo entre si grande contenda.”
__________________________________
Epístolas
Romanos 16:24 – “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém.”
1 João 5:7-8 – O trecho: “Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um.” é omitido.
Essas omissões resultam da adoção do Texto Crítico, que rejeita diversos versículos preservados no Texto Recebido — base de traduções históricas e confiáveis como a versão de Almeida, a King James Version, a Reina-Valera, a Ostervald, entre outras.
Ao adotar a prática de suprimir versículos do corpo do texto bíblico, a NVI23 se aproxima de versões como a Tradução Novo Mundo (utilizada pelas Testemunhas de Jeová) e a Bíblia de Jerusalém (de orientação católica e ecumênica), que seguem o mesmo critério textual crítico.
APÊNDICE C – POR QUE USAR UMA VERSÃO CLÁSSICA DAS ESCRITURAS?
1. Tradução por equivalência formal
Esse método traduz a Bíblia da seguinte forma: verbo por verbo, substantivo por substantivo, palavra por palavra. Por assim proceder, o resultado é um texto em português muito próximo ao seu equivalente em grego ou hebraico.
Versões contemporâneas das Escrituras optam pela equivalência dinâmica, que, por um lado, facilita a linguagem; mas por outro, falha, traduzindo os pensamentos dos tradutores. É válido ressaltar que Deus não inspirou pensamentos, mas palavras. Por isso, cada palavra é importante.
Há um mito de que, por causa da equivalência formal, versões clássicas seriam difíceis de ler. Isso não é verdade. Por exemplo, em Naum 1:3 o texto afirma que Deus é "tardio em se irar", mas o hebraico traz literalmente: “Deus é nariz longo”. As versões formais não traduzem essa expressão ao pé da letra, mas recorrem a uma equivalência dinâmica. A diferença é que o fazem apenas quando necessário.
2. Uso de itálicos
Ao traduzir as Escrituras, é inevitável que, em alguns momentos, seja necessário adicionar palavras de ligação ou coesão. Versões clássicas mantêm cada palavra encontrada no original em fonte padrão, e, quando há a necessidade de inserir palavras para melhor compreensão, utilizam itálicos. Dessa forma, o leitor pode identificar por si mesmo qual palavra equivale ao original e qual foi inserida pelo tradutor.
3. Uso dos textos mais confiáveis
O Texto Tradicional está firmemente embasado na história da igreja, nos testemunhos manuscritos e nas evidências internas. Trata-se do Texto Recebido no Novo Testamento e do Texto Massorético no Antigo Testamento. Esses são os textos mais fielmente preservados das Escrituras.
4. Recomendações Confiáveis
● Almeida Corrigida Fiel (ACF) – SBTB (100% baseada no Texto Tradicional)
● Bíblia King James Fiel (BKJ1611) – BV Books (100% baseada no Texto Tradicional)
● Almeida Revista e Corrigida (ARC) – SBB (baseada no Texto Tradicional, com algumas infiltrações do Texto Crítico Nestlé-Aland)
✦ O conteúdo dos textos publicados no site Curso Bíblico Online por autores convidados e/ou artigos cedidos pelos autores expressa a opinião dos mesmos, sendo eles os responsáveis.
Complemento do Artigo feito pelo Curso Bíblico Online
Além das recomendações acima, informamos outras 2 versões em Português:
● Bíblia King James Clássica (KJC) – Hagnos (99,9% baseada no Texto Tradicional)
● Almeida Revista e Corrigida (ARC) – CPP (publicada pela Casa Publicadora Paulista, baseada no Texto Tradicional, com algumas infiltrações do Texto Crítico, porém, menos que a próxima da SBB)




Comentários