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Véu na igreja: O Véu na História e o papel decisivo do Feminismo

Atualizado: 19 de jun.


Certamente você já ouviu alguém se referir a determinada denominação como “a igreja do véu”. A expressão, porém, pode dar a impressão equivocada de que o uso do véu sempre pertenceu apenas a alguns grupos específicos. A verdade histórica é outra: desde a igreja primitiva até pouco tempo, as mulheres cristãs cobriram a cabeça em todas as igrejas cristãs (católica, ortodoxa e protestante) tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo. Somente em tempos recentes, especialmente a partir das transformações culturais do século XX e do avanço do movimento feminista, esse costume foi sendo amplamente abandonado. Neste artigo, procuramos compreender essa história desde a Igreja Primitiva até os dias atuais.


O véu feminino nas igrejas: dois mil anos de história e o papel decisivo do feminismo no seu abandono

Por quase vinte séculos, entrar numa igreja de cabeça descoberta era algo impensável para uma mulher cristã. Da Antioquia do século IV às paróquias católicas e igrejas protestantes do interior do Brasil nos anos 1950, o lenço, a mantilha, a touca ou o chapéu não eram acessórios de moda: eram sinal. Um sinal que toda a tradição (católica, ortodoxa e protestante) leu, com notável constância, como submissão à ordem estabelecida por Deus. E então, numa única geração, essa prática milenar quase desapareceu do Ocidente.

O que mudou? Houve moda, houve secularização, houve mudanças litúrgicas motivadas pelas ideologias mundanas. Mas, se procuramos o fator que deu sentido, direção e voz a essa ruptura (o fator que transformou uma prática em desuso num símbolo a ser conscientemente rejeitado), a resposta tem nome: o movimento feminista. Não foi o feminismo que inventou o desgaste da prática; foi ele que o nomeou, o teorizou e o acelerou, lendo o véu exatamente como a tradição sempre o lera (como emblema de sujeição - 1Co 11:2-16; Efésios 5:22-24) e concluindo, ao contrário dela, que esse emblema precisava cair. Este artigo percorre toda essa história em ordem cronológica, dos Pais da Igreja ao século XX, para mostrar por que o feminismo foi o fator ideológico mais decisivo no abandono do véu.

Um símbolo que o feminismo entendeu melhor do que ninguém

Há uma ironia no centro desta história. Quando as feministas da segunda onda olharam para o véu e disseram que ele significava a subordinação da mulher, elas concordavam com Tertuliano, com João Crisóstomo, com Calvino e com os puritanos. A divergência nunca foi sobre o significado do véu. Foi sobre se esse significado era bom.

A base da prática é essa passagem em especial: 1 Coríntios 11:2-16, em que o apóstolo Paulo ordena que a mulher ore "coberta" e o homem "descoberto". Ao longo dos séculos, os intérpretes identificaram ali três grandes razões para o véu: a ordem da criação (Deus, Cristo, homem, mulher), a modéstia e o enigmático "por causa dos anjos" (v. 10). E quase todos entenderam a cobertura como um objeto material (um pano; cf. Gn 24:64-65; Nm 5:18), não apenas como o cabelo longo. Guardar esse significado é essencial, porque é precisamente contra ele que o feminismo se voltaria.


O Véu e o Feminismo

A Igreja antiga: dois mil anos começam com a cabeça coberta (séculos I a VIII)

A primeira coisa que surpreende quem investiga as fontes é a unanimidade. Não há, em toda a patrística, um único autor defendendo que a mulher ore descoberta. O que existe é debate sobre detalhes: se a regra alcança as virgens, se vale só no culto ou também na rua, e o que significam os tais "anjos".

O testemunho mais antigo é indireto. Por volta do ano 180, Irineu de Lyon, ao refutar os gnósticos valentinianos, registra que eles citavam 1 Coríntios 11:10 na forma "a mulher deve ter um véu sobre a cabeça, por causa dos anjos". É preciso ser exato: trata-se da citação que Irineu relata dos hereges, e os próprios editores antigos anotam que a palavra "véu" indica que ela trazia o sinal de poderio sobre sua cabeça, por causa dos anjos. Ainda assim, prova que a leitura já circulava no século II.

Pouco depois, em Alexandria, Clemente escreve no Pedagogo que a mulher deve estar "inteiramente coberta" e que "convém que ela ore velada", ampliando o tema para a modéstia na rua. Em Cartago, Tertuliano dedica um tratado inteiro, o De Virginibus Velandis, a defender que até as virgens adultas se cubram, e registra que "até hoje os coríntios velam suas virgens". Ele lê os "anjos" como os anjos caídos de Gênesis 6.

As ordens eclesiásticas são ainda mais concretas. A Tradição Apostólica atribuída a Hipólito exige que a mulher cubra a cabeça com "pano opaco, não com véu de linho fino, pois isto não é uma cobertura verdadeira", contrariando a ideia de que bastaria o cabelo. A Didascalia Apostolorum siríaca manda cobrir a cabeça na praça. E Orígenes formula a bela imagem da "Igreja dupla": os anjos estão presentes na assembleia e, por causa deles, a mulher ora coberta.

No século IV, o Sínodo de Gangra (cuja datação oscila entre 340 e 379) chega a lançar anátema contra a mulher que corta o cabelo "que Deus lhe deu como lembrança de sua sujeição". As Constituições Apostólicas mandam que as mulheres se aproximem da comunhão "veladas". E o maior comentarista do tema, João Crisóstomo, na sua célebre Homilia 26 sobre 1 Coríntios, distingue o cabelo do véu e afirma que a mulher deve estar coberta "não só no tempo da oração, mas continuamente", afirmando que ao rejeitar o véu seria tão estranho quanto rejeitar o próprio cabelo: " Se vocês rejeitarem a cobertura determinada pela lei de Deus , rejeitem também a determinada pela natureza" parafraseando Paulo em 1Co 11:5-6, e conclui: "E se lhe foi dado um véu", perguntam vocês, "por que ela precisaria acrescentar outro?", para que não só a natureza, mas também a sua própria vontade participe do reconhecimento da submissão.

No Ocidente latino, Jerônimo descreve, na sua Carta 147, que as monjas do Egito e da Síria cortavam o cabelo, mas não andavam de cabeça descoberta contra a ordem do apóstolo; usavam uma touca ajustada e um véu:


É comum nos mosteiros do Egito e da Síria que virgens e viúvas que fizeram votos a Deus, renunciando ao mundo e aos seus prazeres, peçam às matriarcas de suas comunidades que lhes cortem os cabelos; não que depois andem com a cabeça descoberta, desafiando o mandamento do apóstolo em 1 Coríntios 11:5-6, pois usam um gorro e um véu bem ajustados.

E Agostinho, na Carta 245, é taxativo: "não é decoroso, nem mesmo nas mulheres casadas, descobrir os cabelos, visto que o apóstolo manda que as mulheres mantenham a cabeça coberta".

O uso do véu continua nos séculos seguintes: em Teodoreto de Ciro (que lê os "anjos" como anjos guardiões) e em João Damasceno, no século VIII, cuja exegese é, na prática, um resumo de Crisóstomo. Vale uma nota de cautela acadêmica: certa citação contundente sobre os anjos costuma ser atribuída a Cirilo de Alexandria, mas sua autoria oscila entre Cirilo e Severiano de Gabala. Todos confirmaram o uso do véu para as mulheres cristãs.

A Reforma não rompeu com o véu (século XVI)

Quem imagina que os reformadores, ao romperem com Roma, abandonaram o ensino bíblico acerca do uso do véu, engana-se. Eles o herdaram como leitura bíblica, não como invenção medieval. Já na Bíblia de John Wycliffe (1395), 1 Coríntios 11:10 traduzia o termo grego como covering, "cobertura":

"Therefore the woman shall have a covering on her head, also for angels.", literalmente: "Portanto, a mulher deve ter uma cobertura sobre a cabeça, também por causa dos anjos."

Sinal de como o texto era entendido na Inglaterra pré-Reforma. Ainda não encotrei uma documentação de uma "doutrina do véu" própria de grupos como valdenses ou lollardos; o que houve foi a continuidade do costume comum a toda a cristandade.

Martinho Lutero, num sermão de 1525, explica que "a esposa usa o véu sobre a cabeça, como escreve São Paulo em 1 Coríntios, para mostrar que ela não é livre, mas está sob obediência ao marido". A própria Confissão de Augsburgo (1530), documento fundador do luteranismo, cita no Artigo 28.54 (So Paul ordains, 1 Cor. 11:5, that women should cover their heads in the congregation) que "Paulo ordena que as mulheres cubram a cabeça na congregação" como exemplo de ordenança de boa ordem.

O tratamento mais detalhado é de João Calvino. No comentário a 1 Coríntios, ele afirma que o cabelo não basta (exige-se "uma cobertura, seja um manto, seja um véu"), que a regra alcança todas as mulheres, e adverte com firmeza contra as que aparecem descobertas. Some-se a isso a Bíblia de Genebra, cuja nota a 11:10 diz que "as mulheres devem estar cobertas, para mostrar por este sinal externo sua sujeição", e o escocês John Knox, que glosava a passagem como "uma cobertura em sinal de sujeição". A leitura era unânime entre os reformadores: o véu significava ordem e submissão, e devia permanecer entre as mulheres cristãs.

Os puritanos e o auge do argumento "por causa dos anjos" (século XVII)

Foi entre os puritanos ingleses e escoceses que a defesa do véu atingiu sua maior densidade teológica, com forte fascínio pelos "anjos" do versículo 10. William Gouge, em Of Domestical Duties (1622), arrola "O próprio vestuário que a natureza e os costumes de todos os tempos e lugares ensinaram as mulheres a usar confirma isso: como cabelos longos, véus e outras coberturas sobre a cabeça". John Bunyan, o autor de O Peregrino, em A Case of Conscience Resolved (1683), comparou as mulheres na igreja da terra aos anjos na igreja do céu, afirmando que há entre ambos certa semelhança no culto, pois os anjos “cobrem o rosto em atos de adoração”, com referência a Isaías 6:2 e 1 Coríntios 11:10. A partir disso, Bunyan argumentou que, assim como os anjos clamam “Santo, Santo, Santo” com o rosto coberto no céu, também as mulheres deveriam fazê-lo com o rosto coberto na terra, “por causa dos anjos”. E Thomas Wall publicou em 1688 um tratado inteiro contra homens usarem cabelos cumpridos ou mulheres cabelos curtos ou sem véu, e chamou o desprezo a 1 Coríntios 11 de "lepra" que se alastrava pelas congregações devido a pregadores usarem cabelos longos: "Assim, é agora pecado nos homens usar o cabelo comprido das mulheres, a cobertura natural da mulher; e igualmente pecado nas mulheres cortar o cabelo, sua glória efeminada, e insígnia e sinal de sua sujeição aos homens, seus maridos, para os homens usarem; e tanto mais digno de lamentação, quando os líderes do povo, que deveriam ser guias das pobres almas no caminho da justiça, são os líderes de outros neste ato de injustiça. [...] Agora, porque os Pastores e Mestres deste tempo, cujo dever neste tratado será mostrado, devem ter compaixão daqueles de seus irmãos que caíram em pecado; como esta vergonhosa transgressão de os homens usarem o cabelo comprido das mulheres em perucas

Que proveito terá a vã jactância desses pregadores no último dia?"

Vários autores eram membros da Assembleia de Westminster. Curiosamente, os documentos confessionais de Westminster não legislam explicitamente o véu, mas a prática era pressuposta e universal nos bancos das igrejas puritanas.

Dos púlpitos do século XVIII ao limiar de 1960

A continuidade atravessa intacta os séculos seguintes. John Wesley, fundador do metodismo, escreve em suas Notas (1755) que "a mulher deve estar velada nas assembleias públicas, por causa dos anjos". O comentário de Matthew Henry afirma que descobrir-se é "lançar fora o sinal de sujeição". John Gill e Adam Clarke repetem que o véu, e não apenas o cabelo, é exigido no culto público.

No século XIX, o influente presbiteriano de Princeton Charles Hodge reconhece o caráter convencional do vestuário, mas mantém que "o véu, em todos os países orientais, era símbolo de modéstia e sujeição". Robert L. Dabney, em “The Public Preaching of Women” (1879), afirmou que uma mulher aparecer ou exercer função religiosa pública na assembleia cristã “desvelada” era uma “gritante impropriedade”. Charles H. Spurgeon, em sermão de 1862 sobre Efésios 3:10, também explicou o uso do véu “por causa dos anjos”, dizendo que as mulheres apareciam na casa de Deus com a cabeça coberta porque os anjos estão presentes na assembleia e observam a ordem do culto. Já no século XX, o gramático batista A. T. Robertson, em 1931, ainda lê o texto como "um véu pendendo da cabeça"; A. W. Pink defendeu explicitamente a ideia da “dupla cobertura”: o cabelo longo como cobertura natural e uma cobertura adicional, como chapéu ou véu, no culto. Já o teólogo reformado John Murray insistiu que a prática não podia ser tratada como costume meramente local ou temporário, pois Paulo a fundamenta na ordem da criação, que Murray considerava “universal e perpetuamente aplicável”.

A prática, de fato, continuou. Até cerca de 1960, era regra ver as mulheres ocidentais de chapéu na igreja (usado como véu), embora, como observam historiadores, o significado por trás do chapéu já se houvesse perdido havia décadas, reduzido a moda e etiqueta. Diante do apelo mundano, o véu estava maduro para cair. Faltava quem o derrubasse conscientemente. E foi aí que o feminismo entrou em cena.


1960: a década em que o véu caiu, e por quê

Se há uma dobradiça nesta história inteira, ela está nos anos 1960. Foi a década em que o costume desabou no Ocidente, de forma simultânea entre católicos, protestantes e ortodoxos da diáspora. E o motor ideológico dessa queda foi a segunda onda do feminismo.


Vale lembrar que o feminismo, em muitas de suas expressões ideológicas contemporâneas, opõe-se a princípios elementares do Evangelho, especialmente por meio da revolução sexual. Essa oposição se manifesta na defesa do aborto, frequentemente apresentado sob a categoria de “direitos reprodutivos”; no incentivo à liberdade sexual, entendida como autonomia para múltiplos parceiros; na normalização de relacionamentos abertos, isto é, vínculos nos quais se admitem parceiros fora do casamento; na banalização do divórcio; na promoção da ideologia de gênero; entre outros pontos.


Dessa forma, tal perspectiva se opõe à castidade cristã, que inclui a preservação da virgindade para o matrimônio, bem como à fidelidade conjugal. Além disso, muitas correntes feministas criticam o próprio matrimônio nos moldes cristãos, considerando-o um sistema de opressão patriarcal, especialmente por rejeitarem o modelo bíblico segundo o qual a esposa deve submeter-se ao marido.

A "Operação Desvelamento" da NOW (1968-1969)

O episódio mais documentado é também o mais explícito. Em dezembro de 1968, a National Organization for Women (NOW) — a maior organização feminista dos Estados Unidos — aprovou uma "Resolução sobre Coberturas de Cabeça".


1968

WHEREAS, the wearing of a head covering by women at religious services is a custom in many churches and whereas it is a symbol of subjection within these churches, NOW recommends that all chapters undertake an effort to have all women participate in a "national unveiling" by sending their head coverings to the task force chairman immediately. At the Spring meeting of the Task force on Women in Religion, these veils will then publicly be burned to protest the second class status of women in all churches


 O texto não poderia ser mais direto:

 

"Considerando que o uso de cobertura de cabeça por mulheres nos serviços religiosos é um costume em muitas igrejas e que é um símbolo de sujeição dentro dessas igrejas, a NOW recomenda que todos os capítulos promovam um 'desvelamento nacional', enviando suas coberturas imediatamente… [para que] esses véus sejam então queimados publicamente para protestar contra o status de segunda classe das mulheres em todas as igrejas."

À frente da campanha estava a teóloga católica feminista Elizabeth Farians, fundadora da Força-Tarefa Ecumênica sobre Mulheres e Religião, que convencera Betty Friedan de que a religião era uma raiz da opressão feminina. O ápice veio no Domingo de Páscoa, 6 de abril de 1969, na igreja católica St. John de Nepomuc, em Milwaukee: um grupo de quinze mulheres da NOW compareceu à missa com chapéus deliberadamente extravagantes e, ao chegar ao gradil da comunhão, retirou-os e recebeu a hóstia de cabeça descoberta. O episódio, apelidado de Easter Bonnet Rebellion, foi descrito como provavelmente a primeira manifestação por direitos das mulheres dentro de uma igreja, e ganhou a imprensa nacional.

O número de mulheres era pequeno; o efeito simbólico, enorme. Pela primeira vez, retirar o véu deixou de ser um deslize de moda para tornar-se um ato político-ideológico deliberado: a rejeição pública de um sinal de subordinação.

O gesto dizia, em alto e bom som: remover o véu das mulheres cristãs indicava que elas não mais deveriam se sujeitar aos seus maridos.

O "feminismo cristão" reescreve 1 Coríntios 11

Enquanto o feminismo secular protestava de fora, um braço do feminismo nascido dentro das igrejas fazia um trabalho mais profundo e duradouro: o de reinterpretar o próprio texto bíblico: o "feminismo cristão" (também chamado "feminismo bíblico evangélico", inaugurado em 1974) e exegetas igualitários que passaram a sustentar que 1 Coríntios 11 deveria ser culturalmente condicionado, ou seja, não só a cobertura como também a submissão que ela simbolizava; seria uma forma exclusiva do século I, não uma ordenança permanente da criação; sendo assim, de acordo com o "feminismo cristão", a mulher cristã não deveria mais utilizar o véu, nem mesmo estar submissa ao seu marido.

Essa releitura foi decisiva. Ela forneceu uma justificativa teológica que tornou "aceitável" abandonar o véu sem sensação de desobediência. Onde antes uma mulher cristã sentiria que descobrir a cabeça era contrariar o princípio bíblico, agora podia sentir que apenas reconhecia o caráter datado de um costume antigo.

A estratégia foi perfeita e eficaz: o feminismo, em sua versão cristã, não removeu primeiro o véu: removeu primeiro o fundamento que o sustentava.

Moda e secularização: o terreno que o feminismo soube aproveitar

Seria impreciso (e este artigo preza a exatidão) atribuir tudo ao feminismo, como se nenhum outro fator existisse. A própria revista Christianity Today resume que, a substituição do véu por chapéus devido à moda, por volta de 1960, a prática bíblica "já se tornara mera tradição, de modo que, quando os chapéus saíram de moda, o costume foi abandonado junto". Pesaram também a secularização do pós-guerra, a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho e o declínio geral da chapelaria feminina.

Mas reconhecer isso não diminui o papel do feminismo, ao contrário, o esclarece. A moda e a secularização poderiam, sozinhas, ter produzido um desuso lento e inconsciente. O que o feminismo fez foi pegar essa erosão difusa e transformá-la numa rejeição rápida, consciente e carregada de sentido. Ele deu nome ao que estava acontecendo e ofereceu uma razão para querer que acontecesse. É essa a diferença entre um costume que se apaga e um símbolo que se derruba.

Quando, afinal, "acabou"? O fim jurídico, igreja por igreja

Aqui é preciso separar duas coisas que costumam ser confundidas: o abandono prático (um processo social, que se concentra nos anos 1960) e o fim da obrigação jurídica (um ato normativo datável, que só existe onde havia uma lei). Cada tradição seguiu um caminho diferente.

Na Igreja Católica Romana, a obrigação estava no Código de Direito Canônico de 1917 (cânon 1262 §2), que mandava as mulheres cobrirem a cabeça, "especialmente ao se aproximarem da mesa do Senhor". É um mito que o Concílio Vaticano II tenha abolido o véu: como observam canonistas como Edward Peters e Jimmy Akin, o Concílio simplesmente nada disse sobre o assunto. O fim jurídico veio em duas etapas: primeiro, a declaração Inter Insigniores, de 15 de outubro de 1976, afirmou que a prescrição paulina do véu "já não tem valor normativo"; depois, o Código de 1983, em vigor desde 27 de novembro de 1983, ab-rogou o Código de 1917 e simplesmente não repetiu a exigência. Foi o feminismo e a mudança cultural dos anos 1960 que tornaram a regra insustentável na prática; Roma apenas formalizou, depois, o que já era realidade.

Entre os protestantes, em geral não havia obrigação jurídica a revogar, pois o véu se sustentava em costume, doutrina e exegese, não em lei eclesiástica. Por isso a prática pôde declinar, a partir dos anos 1960, sem nenhum ato formal.

As Igrejas Ortodoxas nunca aboliram formalmente a prática. Ela permanece firme na Igreja Russa, o próprio patriarca Cirilo I a defende, e em mosteiros e paróquias tradicionais; o declínio se concentrou na diáspora ocidental, e hoje há até um certo revivescimento.

Por fim, entre os anabatistas, os caminhos se bifurcaram. No ramo menonita mais amplo ou “mainstream”, muitas regras tradicionais de vestuário, inclusive o uso do véu, foram abandonadas ou deixaram de ser normativas ao longo das décadas de 1960 e 1970. Em 1995, a Confession of Faith in a Mennonite Perspective, adotada pela Mennonite Church e pela General Conference Mennonite Church, já não mencionava a cobertura feminina, ao contrário da confissão menonita de 1963, que ainda afirmava a “cabeça velada” da mulher como símbolo de ordem cristã.


Por fim, entre os anabatistas, os caminhos se bifurcaram. No ramo menonita mais amplo ou “mainstream”, muitas regras tradicionais de vestuário, inclusive o uso do véu, foram abandonadas ou deixaram de ser normativas ao longo das décadas de 1960 e 1970. Em 1995, a Confession of Faith in a Mennonite Perspective, adotada pela Mennonite Church e pela General Conference Mennonite Church, já não mencionava a cobertura feminina, ao contrário da confissão menonita de 1963, que ainda afirmava a “cabeça velada” da mulher como símbolo de ordem cristã. Já os grupos conservadores (Amish, menonitas da antiga ordem, huteritas) jamais a abandonaram: ali, a cobertura continua obrigatória até hoje.

Uma releitura contemporânea, e um despertamento inesperado

Convém registrar, que a leitura "véu igual submissão" é hoje contestada, embora tenha sido a dominante por dois mil anos. Uma corrente feminista, sugere que o termo grego exousía em 1 Coríntios 11:10 indicaria a própria autoridade dela, não sua sujeição. Mas essa leitura ignora todo o contexto de 1 Coríntios 11:2-16 onde é dito que "a mulher por causa do homem" (1Co 11:9), sendo "a mulher é a glória do homem" (1Co 11:7), e se a mulher orar com a cabeça descoberta desonra sua própria cabeça (1Co 11:4), explicando que "o homem a cabeça da mulher" (1Co 11:3), "Julgai entre vós mesmos: é decente que a mulher ore a Deus descoberta?" (1Co 11:13) e conclui dizendo que esse era a prática nas as "igrejas de Deus" (1Co 11:16).

No grande arco histórico de 1960 a 1990, foi o feminismo que mudou a prática do véu no Ocidente. O curioso é que, nas últimas duas décadas, cresce no exterior um movimento de mulheres (católicas tradicionalistas, ortodoxas, algumas evangélicas reformadas) que voluntariamente retomam o véu, agora como escolha pessoal de devoção. Dessa forma, o símbolo que o feminismo ajudou a derrubar volta, em alguns círculos, fortalecido por mulheres cristãs que compreenderam perfeitamente a história, se levantam e rejeitam tais influências externas.

Resumindo

Quando as mulheres pararam de usar véu na igreja? Não há uma data única. O abandono prático se concentra na década de 1960 no Ocidente. Entre os católicos, a obrigação jurídica só caiu de vez em 1983; entre os protestantes, nunca houve uma lei a revogar; entre ortodoxos e anabatistas conservadores, a prática em boa medida permanece.

O Concílio Vaticano II aboliu o véu? Não. O Vaticano II não tratou do assunto. A obrigação católica foi declarada sem "valor normativo" em Inter Insigniores (1976) e desapareceu da lei com o Código de Direito Canônico de 1983.

O que o véu significava? Historicamente, a tradição cristã em geral o entendeu como sinal de submissão e da ordem da criação, com base em 1 Coríntios 11, associado também à modéstia e à presença dos anjos no culto.

Qual foi o papel do feminismo? Foi o fator ideológico mais decisivo. A NOW declarou o véu um "símbolo de sujeição" e promoveu, em 1968-1969, uma campanha de "desvelamento nacional", enquanto o "feminismo cristão" reinterpretava 1 Coríntios 11 como costume cultural superado.

Alguma igreja ainda exige o véu? Sim. No Brasil, a CCB (Congregação Cristã no Brasil) e diversas igrejas locais, enquanto no exterior, Comunidades anabatistas conservadoras (Amish, menonitas tradicionais, huteritas) o mantêm, e muitas paróquias ortodoxas tradicionais ainda esperam que as mulheres cubram a cabeça.


*DETALHE IMPORTANTE: este artigo não afirma que determinada denominação esteja correta em todos os seus costumes e doutrinas apenas por preservar o uso do véu. Reconhecer um ponto específico não significa endossar o conjunto inteiro de uma denominação.

Conclusão: o véu, o feminismo e a virada de um símbolo

A história do véu feminino na igreja é, antes de tudo, uma história de continuidade impressionante! Da Igreja Primitiva passando por todos os Pais da Igreja a João Damasceno, de Lutero e Calvino aos puritanos, de Wesley a A. T. Robertson, a tradição cristã foi basicamente unânime em ver na cabeça coberta um sinal de submissão à ordem divina. Por dezenove séculos, ninguém duvidou disso.

Foi preciso preparar o terreno do feminismo para quebrar esse consenso: e ele o quebrou pela raiz. A moda dos chapéus já se esvaía, é verdade; a secularização corroía os velhos costumes. Mas foram as feministas, seculares e "cristãs", que pegaram esse desgaste inicial e lhe deram um significado novo e poderoso: o véu não era reverência, era opressão; não era piedade, era um distintivo de segunda classe. A NOW o queimou em praça pública; as teólogas igualitárias o dissolveram nas páginas dos comentários. Em uma geração, um costume de dois mil anos virou exceção.

Por isso a conclusão é clara, e a precisão histórica a confirma: o feminismo não foi a única causa do fim do véu, mas foi a força ideológica decisiva: aquela que transformou um símbolo milenar de submissão num emblema a ser rejeitado, e que, ao fazê-lo, mudou para sempre a paisagem das igrejas do Ocidente.


De fato, diante da forte influência do feminismo dentro das igrejas (muitas vezes imperceptível à maioria, justamente pela sutileza de suas intervenções), o uso do véu passou a ser desprezado até mesmo por muitos homens cristãos. Por desinformação, muitos acabam se escandalizando com uma prática simples, bíblica e historicamente preservada pelas igrejas cristãs, não apenas na cidade de Corinto, no primeiro século, mas também em todas as regiões do mundo cristão ao longo da História. Sendo assim, o único caminho para a restauração dessa prática será o ato voluntário das próprias mulheres. Se não houver mulheres que, em sentido oposto ao abandono contemporâneo, assumam uma postura firme e usem o véu independentemente de possíveis retaliações, dificilmente se verá novamente o véu ou a cobertura nas igrejas atuais.


Uma imposição direta por parte da liderança poderia ser facilmente interpretada, no contexto cultural e jurídico atual, como atitude autoritária, misógina ou abusiva, ainda que essa não fosse a intenção. Afinal, Deus honrou de tal modo a figura feminina que Jesus, o Verbo que se fez carne, o Filho de Deus, nasceu do ventre de Maria! Além disso, depois de dizer: "Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor" (Efésios 5:22), a Escritura também destaca o dever dos maridos: "Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra" (Efésios 5:25,26).


Se a história nos ensina alguma coisa, é que o véu nunca foi apenas um detalhe externo. (pois se fosse, não incomodaria tanto o movimento feminista). Ele sempre carregou uma mensagem visível sobre reverência, modéstia, ordem espiritual e disposição de honrar a Palavra de Deus também naquilo que contraria o espírito da época. Por isso, talvez o caminho mais sábio para sua restauração não seja o da imposição fria, mas o da convicção piedosa: mulheres cristãs redescobrindo voluntariamente a beleza desse sinal, e líderes ensinando com paciência, clareza bíblica e temor pastoral. Quando recuperado com entendimento, o véu não diminui a mulher; antes, a coloca dentro de uma longa linhagem de fé, humildade e culto reverente. Ele também ajuda a igreja a lembrar que a adoração não pertence à moda, à cultura dominante nem às pressões ideológicas do momento, mas ao Senhor. Restaurá-lo, portanto, pode ser mais do que recuperar um costume antigo: pode ser um testemunho silencioso, firme e belo de que ainda há cristãos dispostos a submeter até os símbolos mais simples da vida à autoridade de Deus.

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Felipe Morais é servo temente ao Senhor, e atua como pastor, Pós-graduado em Teologia, ...

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